última actualização: 13 de Fevereiro

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{por joão pena dos reis}

arquivo rascunhos

O senhor dos danados e o Jonas Prata

O polícia

 

Senhor prata.

Eu não sei dizer ou imaginar o destino

Do musgo nos seus pés ou do orvalho no seu casaco.

No entanto pressinto em si a arma

De que se pretendiam munir,

Quer as florestas negras

Ou a cidades sobrelotadas, cheias de manchas

E nódoas,

            Longínquas de uma inocência pacífica.

 

 

I

 

Lá longe no tempo, naquela linha difícil de

Definir,

Havia eu e algumas coisas que se

Enterraram na neve com o passar dos anos e das

Tempestades – também sei que pouco me falta,

Mas entre as coisas um bosque emergia de importante,

Sepultado num vale de fausto entre os cumes

De inverno e a transcendência.

“senhor prata, eu não sei dizer ou imaginar

O destino do musgo nos seus pés

Ou do orvalho no seu casaco gasto”

Precisamente atrás da única fonte, cuja boca

Esverdeada olhava para norte, há uma campa de granito.

Os animais não se aproximam, e a erva cresce

Rasteira, raquítica. Tudo isto numa clareira roçada

Pelo inútil, demasiado grande para ser igual ás outras,

Sem nunca sentir o calor do sol durante o dia.

 

Uma mulher – os homens são por vezes

Recriminados pelos seus gostos –

Parecera-lhe no inverno extremamente bela,

E banal o resto do ano.

“Apercebera-se disso cedo; cedo também lera

manfred gregor, e entristecera-se com o vento,

-         os rios de sangue também trespassam

o coração da floresta negra –

Não é comum para a velha Maria,

Ser tratada de bruxa; não se importa

Obviamente: “ As tuas armas são os ramos

Das árvores” dizia, quando lhe levava

Comida e um livro, envoltos em trapos,

Cheirando a alecrim.

Diz-me meu filho, não são decerto

Luas futuras que queres desenterrar dos céus.

 

Parece te estranho que ninguém nas ruas,

Te retribua o olhar ou te imite o gesto.

Até as árvores negam gelar-se te.

Nem os cães param, ou abanam o rabo ao passares.

 

Lembra-te do mercador de sonhos. E da

Tumba vazia ou o cemitério não quedado entre vales.

Um ou dois enterros, alguns mortos e uma placa branca

Nula ao fim da viagem, que é nada.

Alguém soprou sobre as folhas suspensas.

Aqui estou , philipus, destruidor de gargalhadas.

Tem cuidado: aqui estar é momentâneo –

Posso estar aqui ou ali, noutro momento.

            “ O chão é daquela terra de pinheiros

nados mortos, de argila dormindo com pinhões,

e arbustos suaves”

 

-         Tem cuidado. Há carícias no senso que se

Prolongam à morte, e sozinhas cavam

Carateras cheiras de morte.

“mas não te preocupes, ouvi dizer, adivinho demasiado

Enquanto rodava a maçaneta de volfrâmio

Com uma mão atrás das costas; com a outra afastei os ramos das árvores que cobriam a gruta.

 

A tua solidão e a minha solidão são espelhos

Em que nos intervalamos

Em infinito e infinitesimal.

 

Podemos e devemos descortinar o decaimento,

No entanto todos os homens ressentem

O passado, que desconstrõem e arrefecem,

Por isso tal não é de grande importância.

 

As portadas abertas para o bosque a entrar

No quarto quente. Sem becos ou ruas escuras

E conspiradoras. Ao longe chaminés enfurecidas,

Tossem o que lhes vai na alma.

Oh audácia que te corre nas veias.

Desertos virão. Serás aridez.

 

De joelhos li a inscrição da pedra tumular:

Não estou aqui, não  o acreditem;

A erva parece tão velha mas luminosa.

O resto o verdejar cobriu e se apoderou.

-         e eu não sujo as mãos pelos mortos,

talvez pelos injustamente mortos.

-         duas voltas completas encerram a claridade,

já não há sol para as folhas encobrirem.

Apenas valas comuns e escuridão.

 

II

 

-         O projectista é uma miragem:

-         Um pseudópode acena me:

 

Oh merda, se o desprazer é assim tanto

Sai. Sim, fico bem.

Manhã. Tarde. Noite. Amanhã,

Os doces plátanos sorriem junto à ribeira.

Na água brilham de sol os seixos da terra.

 

Um degrau. O governador jaz morto no chão. E se

Não fosse a bala na nuca, teria esticado o pernil

De pneumonia ou enfarte do miocárdio.

Pela avenida António Miguel solestício.

Pela rua Sá de Castanhede, junto ao café restaurante Lima.

-         caminha durante muito tempo.

 

junto ao café restaurante Lima,

há uma entrada de metropolitano,

com um pequeno caixote de lixo da Câmara

logo ali à direita.

Propaganda esconde as paredes e os gritos

Pela mudança. oh  Porque ela humilha.

 

Senta-te incómodo numa saliência

Do muro, e observa: o mar mas não o verdadeiro.

O destroço à deriva.

O peixe à mercê - o tormento dos corpos.

 

Receio que não haja a solução pretendida:

Apenas a solução receada. E teremos que escolhe-la.

Segui-la. asfixiarmo-nos nela.

 

O cadáver sentado ao meu lado, dizendo anedotas.

As ervas riem-se os rostos contorcem-se,

Desumanizam-se.

Não sabem distinguir o metro das sarjetas. Não

Entendem que as coisas lá por baixo correm muito

Melhor, que o cheiro não é tão nauseabundo

Como proclamam, que o ambiente não é tão soturno

Como dizem, usando palavras caras

E perfume de ervas de petróleo.

            O mar é o lugar do arrependimento,

Nem é mar, é uma palavra,

Gasta pelo tempo.

Como um baldio que só a eternidade lavra.

 

“este contrair e distender de lixo é o meu coração a bater e a sua empresa.”

 

III

 

Catatonia, meu amor ou a luta de perspectivas.

 

...o cheiro a tubo plástificado louça de

encardida esponjosidade dentro de mim

dentro de ti eu como eu levo às bocas resguardadas  

a nutritividade e a sobrevivência

            “pegares no maço de tabaco é puxares de um punhal

e com ele me ameaçares: pões um dedo primeiro,

prospector, previdente, sob o pequeno paralelepípedo

revestido de uma tanga de plástico, que

o suspiro cutâneo logo embacia. A mão com

toda a força toda arrebata-o com frieza.

-         vejo frieza em toda a parte, sinto frio.”

Rosy é uma laranja disforme disfarçada de

Enfermeira cozinheira põe-em-tudo-e-mais-alguma-coisa soro

Não não vejo não nenhum inconveniente

O seu hálito é tétrico e relembra um recife de

Emoções impróprias para retrocessos e ela é apenas

Um quadro um quadro só que não distingo a moldura do quarto

Mas vejo o cordel que está só preso

A nada e que a segura – momento angular

“agridoce é a cor do sol na minha terra no meu espaço

estranho só o pó da luz se depositasse eu

ficava para trás para trás sacudindo-a

dos sapatos e do cabelo “ o teu olhar é distante como o de um cão louco, mas tu olhas-me pela parede

como se eu fosse um microscópio, e de mim só te

retirasses em introspecção”

pasmo de borboleta por vezes esta afasta o mosquiteiro

para cheirar a perversidade e se satisfazer.

Ai eu quero que a parede deixe de me olhar

Assim lá há um ponto que não vale nada e é só

Meu “ não, não sinto frio, não sinto é nada”

IV

 

Estou sentado.

A cadeira é incómoda e o coccix já se queixa.

“o fenómeno” um pequeno formigueiro faz-me

contrair toda a perna. As gotas de suor na areia, lagos indesejados,

má fortuna. Na semana passada fui a um festival de

musica sacra. “transcende o fenótipo” O fervor típico trepou-me à cabeça.

Cacto. A cinco metros, mais metro menos metro,

Um cacto esconde-me o sol . eclipse do sol e do cacto.

Faço cara e olho desconfiado. Não há pirâmides

Ou mausoléus. Nem oásis de imperfeições.

O meu colarinho está sujo e eu estou morto

De

Cansaço

Morro lentamente de cansaço

E o calor lentamente

De suor mata-me

Lentamente

Eternamente só.

 

V

 

Mercador de sonhos

 

Na noite seguinte à primeira,

Aventurei-me na mata obscurecida,

Não sei bem

Porquê,

Porque a noite só é sórdida e o vento ouve-se

E a chuva sente-se, nada que

Não se aguente,

O que eu não aguento é a solidão da clareira

Das árvores À volta e das estrelas

Talvez, talvez o corredor leve a algum sítio

Coerente,

E nós? Sonhos pingam das rachas

Das pedras. Inicio a negociação:

O sangue desfaz-se em pesadelos.

 

 

Através do vidro, sem óculos, só consigo discernir aureolas várias no lugar de pontos luminosos, e vincadas a negro através da noite algumas arestas de prédios, e algumas janelas faiscantes, e tudo isso mergulhando nas sarjetas com a chuva de fim de ano.

Na estante ao lado, para o futuro recente Analyse Quantitative, e mesmo à direita mais um volume do proust, e outros mil e tal que apodrecem, sem antes expelirem uma vida inteira em pó e cinzas – marcas de cigarros de há vinte anos – que sedimenta nos meus pulmões, e antes na minha garganta, e antes nos meus olhos chorosos e míopes, displicentes.

            Espero-me aqui. Um visitante inesperado deverá recriar-se nesta mesma sala, e insurgir-se por instintos perigosos contra a passividade. Vestirá um portentoso e indescritível fato de fazenda cor de caqui relembrando um soldado soviético que olha as ruínas do Reightstag pela primeira vez, e pela última vez, e uma cicatriz na têmpora direita latejará ás 10 da noite, e ás 11 da noite continuará a latejar, prosseguindo em profunda crispação. I meant what i said e referi igualmente que o receio latente e, não o neguemos, existente, de que a realidade pode emergir de um plano de estados inertes para uma fábula de inconsequentes conclusões e actos,.. é infelizmente justificável, e deverá ser enfrentado com um epicurismo radical. Deveria revestir os meus ditos de mármore azul claro, e esquecer-me. Espero-me aqui. Um visitante inesperado deverá recriar-se nesta mesma sala, e insurgir-se por instintos perigosos contra a passividade. Entrará pela única porta da sala, que está sempre aberta, placada por um pequeno suporte que ampara uma coluna de som, e dará vários passos sonoros, coordenados com subtis movimentos oculares, observadores, até chegar junto da janela, e tocar, como quem teme um ardor secreto no metal frio, na maçaneta. Ao ser aberta, através dela passa sem tempo definido uma lógica aragem, e com ela umas incómodas gotículas, e deveria ser visto o desconjuntar do penteado, o rebeliar d´algumas madeixas, algumas cãs, mas o sólido cadáver permanece coeso, olhando a imensidão da noite através das abismais covas. Os carros passam. Algures entre o espaço compreendido pelo carro parado imóvel inerte e o cadáver, existe, encoberto pela neblina e o fumo, pela óptica conveniente das luzes convergentes, um cubículo de quadrados minúsculos de quadrados minúsculos de ar. O cadáver é um soldado soviético vestido com um fato de fazenda  cor de caqui. O cubículo permanece onde está, e magnifica, engolindo a cicatriz do cadáver, presente no osso seco. Espero-me aqui. A luz do candeeiro semi-ilumina a sala. Uma televisão faz o seu papel, um jornal ouve-se algures declamando as desgraças d´além. Um visitante inesperado deverá recriar-se nesta mesma sala, e insurgir-se por instintos perigosos contra a passividade. A repetição será a chave do seu lamento. A reformulação será o seu modus operandi. O disfarce o seu ser-nos. Espero-me aqui. A paisagem de mil homens de mãos dadas caminhando pela avenida. O vento gélido contrafeito, irritante, acasala com o medo, fazendo brotar do chão alcatroado - todas elas com seis pétalas azuis cien,- mil mulheres lágrimas.

            No fim da avenida, para desconhecimento dos caminhantes, o cemitério. Pelo caminho, não se viram sinais ou tabuletas. É um dia chuvoso e cinzento, cores e sabores que amortecem pelo ambiente, que adormecem nas raízes das árvores, que boiam no meio das poças da avenida. Um polícia montado caminha na direcção contrária, olhando para trás de tempos a tempos. Um casco estilhaça o horizonte, que se reorganiza inexoravelmente, dizendo ( através de um dos que se afasta da torrente): vi dias quentes, no meu lar, na minha casa, onde no quintal os meus filhos brincavam, quentes e alegres. Vi outras coisas, mas não as pretendo rever especialmente. “Quando a tempestade suplantar o sopro, eu próprio tratarei do meu destino.”

As árvores andam na direcção contrária. Estão sozinhos, sozinhos, sozinhos. Espero-me  aqui.  Toda a sala parece tremer, vibrar. A parede acende-se e desmaterializa-se. Um cão espevita do seu berço; a mãe abocanhou-lhe o cordão. O que resta do vermelho sangue em que se encontra, cedo duro e rijo se acontece, e no chão longe, perdido, esquecido, logo arrefeceu. O pequeno rafeiro passeia-se pela casa, deixando para trás um rasto de boa disposição e alegria. Rói ossos, na marquise junto ao lixo. Chamava-se Nunes... Espero-me aqui. Na planície, podemos esperar nada menos que uma breve brisa de verão, assolando-nos os custados tórridos, enquanto esmagamos a terra seca e enrugada. E caminharemos várias horas, rumo ao infinito, rumo ao esquecimento, com paixão, confiantes e determinados. Os Filhos caminharam dois passos atrás, transportando sacos de transtorno e constrangimento. As mães cavam as suas covas, lá adiante, no vale, e cavam-nas mais alargadas, pacientes. A terra os comerá e nada permitirá emergir. Nenhum cão os roerá. Fear death by water. 

Espero-me aqui. O sol vai alto e quente, bom. O seu calor penetra na sala, através do vidro, através da persiana, e aquece as extremidades dos objectos. Chega aos cantos mais obscurecidos, aos recantos mais esquecidos. Chega ao que resta do andar. Sinto uma vertigem imensa um medo uma sensação terrível de irresistível leveza sinto-me ir para baixo com a casa com o espaço com os tijolos com os raios solares a marcarem os níveis oblíquos que trespassam as paredes em queda sinto nada sinto a luz a não me servir de nada no meio do meu sangue perdido no meio do pó e cimento irrecuperável sinto a cova de cimento armado sinto a campa de escombros e poeira sinto-me à espera aqui.

 

 

 

O cadáver põe a mão no meu ombro.

Sussurra algo sobre o amanhã. Oiço os seus dentes

A cortar o silêncio.

            O miúdo fechou os olhos e esboçou

Um sorriso.

 

: O que me ofereces a mim não traz nada a mim

O que me queres dar outros se negam

A mim dar e aceitar de mim

O que me ofereces tu, decididamente?,

Penso talvez que o homem é uma cidade

E que a tua não vê a luz

 Do dia há algum tempo.

A tua melancolia é uma delícia. O teu sangue inútil.

 

O deserto não é lugar para a desafeição.

Talvez não haja desertos, clareiras ou estrelas

Apenas desafeição.

 

O meu espelho mente demasiado. Vejo-me

Com carne, vivo.

Os lábios roxos e o corpo

Desnudado vibram. Cabelos entre mortos

E vivos.

E isto tudo num cubículo sem sanita

Ou lava pés. “cuidado”

A cama não me segura. O medo não me segura.

Não há medo;

            A tua mente: dissecada

-         ovo podre.

 

À cadeira espera-se, mas não vem ninguém.

E isto tudo num deserto sonegado.

“temos que ter fé: a embaixatriz salvar-nos-á e

irá para a cama, oferecendo-se, jarros de pétalas,

rosas; “ meu desaparecer uma surpresa,

tenho, desculpai, que lamentar o meu desaparecimento”

 

VI

 

Andamento taciturno.

 

O andamento taciturno dos homens musicais

No pontão ao mar gretado de aparências

Saltitante em inquieta permanência

Ao sol quis o espelho que a luz não me deu

E ceguei-me

Desprotegido de fardos e complacências 

O andamento taciturno dos homens musicais

Ao longo do cais de mar gelado em discrepâncias

As ondas incólumes à solidão das ânforas.

O boiar plausível mas no nevoeiro disperso

De mil mapas e tratados de memória

O emblema da sorte crispado de tempestade

Alcança e remete para o cansar das distâncias

O andamento taciturno dos homens

Levados pelas ganâncias

O metrónomo apodrece carcomido pelo sal

Displicente

É a esta a paz que deus trouxe à terra

E ás suas correntes humanas

É esta suspeição prolixa que se esquece

No fundo dos abismos

                        Sob destroços de ânforas

Sob o cemitério sinfónico é o fagote de metal

Enferrujado pelo éter estragado

Que relembra

O prazer inexplicável da primeira sortida ao fundamento

Hoje quer-se o amanhã clonado em distanciamento

Pleno mas inócuo

Diz pergunta sobre a catarse do marinheiro e

Reacredita o seguinte que o que vem atrás de ti sabe

Tanto quanto o primeiro e aqui somos todos iguais

Como ninguém

Ah a lágrima que sugere um destino sugado pela imensidão

Finalmente surge sob a cara fria de vento

Das falésias

Donde vejo a seu lado o andamento taciturno

Dos homens musicais

Inabitados

A sua música é a prisão de areia

Dentro d´água

É o ser de monções que não desprega dos ilhéus

Inabitados de tudo excepto das sombras

Deixadas para trás ao relento

E o fim no fim parece a singularidade.

 

 VII

 

Cair.

 

Ao regresso nada lhe ligo de bondade e respeito

Pois não fui justo ao desligar-me

Da jaula de cristal.