última actualização: 13 de Fevereiro
                                                                                                                                                                           


cantinho da  poesia lusófona...

cidade 1985 {+}

grito negro {+}

livro de horas {+}

soneto do cativo {+}

 

 

  Cidade 1985

 

    De manha quando acordo    

    em Maputo

    o almoço é uma esperança.

    Mãe tenho fome

    marido tenho bicha

    e mil malárias me disputando a vontade.

     

    De manha quando acordo

    em Maputo

    o jantar é uma incerteza

    o serviço uma militancia política

        do outro lado do sono incompleto

    e o chapa-cem um regulado impiedoso

        no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

        

    De manha quando acordo

    em Maputo

    o vizinho já candongou o que me roubou

    a estomatologia não tem anestesia

    a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada

    e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

 

    De manhã quando acordo

    em Maputo

    Porra para a vizinha que estoirou a torneira do res-do-chão

    Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água

    Porra para as cem gramas de carne apodrecidos

        no silêncio desenergetico de Komatipoort

    mais as ó eme sed de efes

    e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios

        são lugares públicos

    e os fulanizados exploradores de outrora

        que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,

        as ordens de um Mouzinho boer.

 

    De manhã quando me percorro 

    em Maputo

    enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência

    desembainho felinamente mais uma mentira diplomática

    e aguardo a lucidez companheira me leia

        nas acácias em sangue

        nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo

    que este é ainda o eco estridente do Chai

    até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

    

    Então,

    com a raiva intacta resgatada à dor

    danço no coração um xigubo guerreiro

    e clandestinamente soletro a utopia invicta.

 

    À noite quando me deito

    em Maputo

    não preciso de rezar.

    Já sou herói.

{Carlos Cardoso (Poeta Moçambicano)}






Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

{José  Craveirinha (Poeta Moçambicano)}


 


Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

{Miguel Torga}


 

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão 
de tantas sensações contraditórias; 
a sórdida mistura das memórias 
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão 
de frases insensatas, incensórias; 
a cúmplice partilha nas histórias 
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia 
de buscar nos lençóis a mais sombria 
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo 
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo, 
tenho vivido eternamente preso!