última actualização:
13 de Fevereiro
sem periodicidade... ao sabor do pensamento

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o sentir do pensar {+}
{por tiago sousa}
a
grande moca {+}
{por tiago
sousa}
teoria
do tamanho
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{por tiago
sousa}
noites
absolutamente comuns {+}
{por maria
oliveira}
publicidade
- esse fenómeno comum {+}
{por maria
oliveira}
esmeralda
{+}
{por joão bateira}
o
sentir do pensar
{por tiago sousa}
“A
melhor maneira de viajar é sentir.”
Frases como estas, quando interiorizadas, por vezes até dão jeito a dar
sentido a certos momentos de maior delíquio emocional. Digo
interiorizadas porque, como quase tudo de Álvaro de Campos, não nos
parece difícil no imediato apreender, racionalizar e até opinar, ainda
que geralmente de um modo pouco peremptório, acerca de pensamentos deste
tipo. Semanticamente, portanto, são de uma fácil análise e bastante
acessíveis.
Penso que este género de citações não me apaixonam apenas pela
profundidade intrínseca ao seu teor, mas sobretudo pelo brilhantismo com
que se afiguram às diferentes circunstâncias para nelas se instalarem e
assim, finalmente, lhe delimitarmos o seu contorno significante.
Há para além do significado racional algo que a transcende para o nosso
próprio sentir. A frase atravessa a consciência e age activamente no
sentimento. Há como que uma passagem quase divina do racional para o
emotivo. As emoções circunstanciais devidas às vivências concretas são
ampliadas e enriquecidas racionalmente.
Falo de uma construção frásica para conseguir, através de uma continua
analogia com um exemplo de estrutura simples, exprimir mais comodamente o
meu ponto de vista. Claro que seria mais completo e categórico falar de
um modo mais amplo, mas creio que este estudo em particular é generalizável
para todos as formas literárias que o autor adoptou na sua obra.
Devo dizer que a obra deste autor de imensurável categoria me tem
fascinado principalmente por isso mesmo: encontra e inventa, com incomparável
maestria, a convergência do que de mais inteligente se pode conseguir da
sintáctica desta rede fechada e extremamente restritiva quanto à
quantificação de sentimentos - a língua - com o que há de mais
profundo e inquantificável em cada um de nós.

a
grande moca
{por tiago
sousa}
-
Ei, que estrondo! A sério?
pergunta o Jimmy com grande entusiasmo ao Pedrão.
- Sim. Esta tem apenas 10 por cento de resina de cannabis. O resto ouvi
dizer que são tudo químicos sintetizados por alunos de engenharia
química que não chegaram a acabar o curso...
- Então tás-me a querer dizer que esta me vai dirigida directamente ao
hipotálamo, afectando irreversivelmente o sistema nervoso central e
reduzindo até 20 por cento a minha capacidade de abstracção espacial e
matemática fundamentais para concluir o curso e vir a ter um emprego que
me dê alguma estabilidade financeira para depois poder usufruir de coisas
que sempre sonhei e que dão sentido e esta enorme e íngreme escalada que
é a vida que de resto sem isso é uma pura estadia corpórea num planeta
onde não és mais que uma ínfima partícula que em nada afectará o
ciclo natural do universo.
- Sim! Tudo isto em troca de uma boa moca que te faz ouvir música com
outra sensibilidade e te intensifica o estado de espírito em que te
encontras neste momento, e que além disso te deixa desperto mas contudo
bastante relaxado, dando-te assim uma visão diferente da normalidade da
vida! Sem falar das olheiras com três centímetros de diâmetro que te
acompanharão para o resto da tua efemeridade como símbolo da pessoa
irreverente que és!
- Hum... é bom ter amigos como tu que me esclarecem para as coisas boas
que a vida nos oferece e que quase sempre nos passam ao lado... faz lá
esse então antes que o meu velho me telefone... olha que já são quase
duas da manhã e eu ainda aqui a apanhar frio!
teoria
do tamanho
{por tiago
sousa}
Uma
imagem (que pode servir de metáfora) para redimir e reduzir a vida a um
absurdo racional é inserir a vida como matéria temporal num buraco
negro, que, como se sabe, é um espaço de vazio absoluto onde a matéria
é absorvida. Pura e simplesmente deixa de existir. Para o conseguirmos,
partimos do fundamento de Fernando Pessoa da vida como estado mental: o
mundo é apenas aquilo que em nós se instala. Tudo os que te rodeia
existe, mas é através de ti “que se instala em vida” como diz Vergílio
Ferreira (VF). O mundo não é mais do que aquilo que crias em ti, que
vives em ti. Dás-te conta que te inventas a cada segundo. O teu cosmos é
o teu pensamento.
Podemos desta maneira limitar a vida num intervalo de dois abismos para o
nada absurdo de tudo o que existe: o nascimento e a morte (claro que a
convicção de que o antes do nascer e o depois do morrer representam o
nada de tudo é função da dimensão religiosa e transcendente de cada
um. Neste texto falo, como é obvio, da minha dimensão.)
Se a vida é esse instante infinitesimal que aparece algures na infinitude
do vácuo, segundo a metáfora que apresentei atrás, pura e simplesmente
não tem dimensão lógica. Em matemática dir-se-ia que é um infinitésimo,
tende para zero – isolada não tem significado físico (embora seja
elemento essencial no calculo integral).
O que acabei de fazer foi uma possível (pequena) teorização, entre
muitas que às vezes nos aparecem e são possíveis de fazer, que poderia
levar, se mais aprofundado, a menosprezar e cobrir de ridículo a vida
enquanto estadia temporal. Simplesmente essa não é a minha opinião.
Tenho uma visão absolutamente antagónica em relação a qualquer
filosofia que tende, de alguma forma, a diminuir o maior dos milagres: a
vida.
A morte deve ser sempre encarada como um limite que se perde sempre no
futuro da nossa evidência. A vida, quando vista como uma sucessão de
instantes momentâneos, onde te inventas e te recrias em cada hora, deixa
de ter aquela pequenez, que muitos teimam em vincar, para ganhar a dimensão
do infinito na tua dimensão . Cabe-te em ti. És tu o universo que
alumias o universo, que o totalizas, que o preenches: tu existes para ele
existir – és tu o constante Inicio da criação. Em cada instante a
vida tem sempre um horizonte infinito aos teus olhos, à tua maneira de o
percepcionares, onde a morte se perde para lá da fronteira imaginável
desse horizonte – um instante irreal por ser instantâneo. Para mim,
mais importante que ver a vida no tamanho do que não sou, é ver o
tamanho da vida no meu tamanho, no que sou realmente – ai ela ganha
proporções humanas, sentido concreto e evidente.
“Estás vivo, é dia, o sol e o mar são verdade. Todas as filosofias de
terror e frustração e da indiferença e do desânimo que rasteja e da
humilhação e da amargura – lava-as na água do mar. E sê digno da tua
grandeza de homem, que é muito maior que tudo o que a humilhar.” (VF).
Vida voraz e ferozmente vivida, nesta passagem única e intensa, apenas
– simplesmente – porque te reconheces no milagre de ti.
noites
absolutamente comuns
{por maria
oliveira}
Boa Noite Senhores Telespectadores!
Pedimos desculpa por interromper o "Programa da Maria", mas houve um incêndio na rua 9 de Abril, no prédio 859, no bloco B. Já Chegaram os bombeiros e duas ambulâncias. Vamos entrar em contacto com a repórter Inês Albuquerque, que está em directo do Porto.
- Inês, como está a situação?
- Está um homem no 5º andar frente a tentar saltar para o tapete dos bombeiros, mas não consegue pois tem vertigens.
- Já não dá para entrar pela porta?
- Não! Chamo a vossa atenção para o bombeiro que acaba de sair do prédio com uma criança no colo.
- O prédio já foi evacuado?
- Só falta o tal senhor que está no 5º andar... mas esperem... está um bombeiro a subir para salvar o senhor... foi finalmente salvo!
- Sabes quantos feridos houve?
- Penso que foi um senhor para o hospital, mas não inspira preocupação... de resto, nem sequer houve mortos.
- Muito obrigado, entraremos em contacto contigo sempre que se justificar. Mais uma vez, pedimos desculpa pela interrupção.
Tenha uma boa noite.

publicidade
- esse fenómeno comum
{por maria
oliveira}
- Parece impossível! A novela ainda agora começou e já vai para intervalo.
- Ó Vó tenha calma! A avó tem de entender que eles têm que fazer publicidade aos produtos para os vender. Mas de facto é demais!
Num curto espaço de tempo aparecem cinco detergentes para a loiça, quatro detergentes para a máquina da roupa, três ou quatro marcas de electrodomésticos, várias marcas de batatas fritas, refrigerantes, automóveis... enfim, são tantas que até se perde a conta.
Se tudo isto fosse bom não se gastaria tanto dinheiro em publicidade. Alguns anúncios não deixam de ser engraçados... é um facto. Os da Coca-Cola (eu não bebo) são quase sempre divertidos e bem feitos; mas, o do
Sun, por exemplo, é uma estupidez: o homem faz tantas piruetas que chega a meter dó com a triste figura que
faz.. Estas palavras servem para caracterizar também o anúncio dos gelados Olá e muitos mais...
Sem falar na publicidade enganosa, posso referir que, um dia, eu e a minha mãe
caímos na esparrela deste bichinho maldoso e acabamos por perceber que formação não
implica deslumbramento!
A publicidade é cara e dá quase de borla... mas o barato sai caro.

esmeralda
{por joão
bateira}
‘Só
por existir’ é que tenho obrigação de te aturar, Esmeralda. Só mesmo
por ter tido a sorte de existir naquela selecção atabalhoada – que
pela minha mãe, venha o diabo e escolha, pelo mau pai se for rapaz,
melhor! E escolheram-me a mim mesmo. Pr’aí o número 13, vestidinho de
branco, virgemzinho por todo, pronto para toda a tua malícia e ternura,
dizes tu.
És
uma besta, Esmeralda... que porra! Que porra só ter acordado agora –
mas acordei de vez - e ter-te deixado programar filhos, casa, viagens,
bebedeiras...orgias...aquelas orgias – onde é que eu andava? devo ter
ido levar os meus neurónios passear ao parque, e deixei-os para lá a
cagarem os bancos todos, a desaparecerem deles, a evaporarem-se num ápice.
Como gostava de me ter aparecido a mim naquelas tardes tediosas de álcool
e poker, álcool e poker, álcool e poker, ál-co-ol...e...po-ker...Esmeralda.
“A mais preciosa pérola” dizia o meu inconsciente
naquele cartão no nosso primeiro dia dos namorados,
o primeiro dia do resto da minha morte.
Filhos,
muitos, porque não Esmeralda só quero fazer-te feliz! e se é
mesmo isso que queres, porque não?
Porque
agora não.
Porque
não?
Porque...
Porque
é que? Porque eu...Um filho, e não se fala mais nisso!
que
não tinhas a idade adequada para mais – e é esta tua noção de vida
que eu mais aprecio, Esmeralda, é aos 25 anos dizeres uma coisa destas e
sentares-te fins-de-semana a fio naquele sofá de couro castanho, com
aquele monte de revistas que já sabias de cor e salteado...e eu passar
por ti e, ou seduzires-me a mais um copo num jogo, ou a dizeres-me que
logo passam por cá a Neida e a Bárbara, e tu a saberes que eu rebentado
de tanto não dormir, ou de pouco não beber continuo a não resistir ás
ancas da Barbara ou aos bicos da Neida – ai! a Neida!, Esmeralda...
Nasceu
o puto. Primeiras namoradas, ai que giro – 3 de cada vez era
original...tão giro...10 anos?
tem a pinta do Pai - como é que não te dei duas bofetadas é que
eu não sei – motorizada, que precisa de ser independente, dinheiro –
muito! que ainda dizem que somos pobres, que eu sou maluco, que para droga
é que não era, tadito do catraio, que eu sou mesmo parvo. De Jorge
passou a Jorginho, afanicadinho, aparicadinho pelas tuas festinhas de não-berres-assim-que-ele-hoje-não-está-bem,
enterradinho na heroina até ao cimo dos 23 anos mais mal aproveitados que
conheço.
Pesas!...Pesas...pesas
MUITO!, Esmeralda, estou farto de te dizer que não é só o facto termos
de trocar de cama quase de mês a mês - porque não há camas feitas de
vigas de cimento armado - que eu juro-te que subia a merda dos 7 andares
com ela ás costas, só para não ter que te snifar o surro durante o
sono, depois de me fazeres escorregar para ti com o peso no teu lado do
colchão. Não é só por causa disso, Esmeralda... É por causa da tua saúde,
mulher de Deus – e benzo-me que ainda acredito numa vida a sério, nem
que seja envolto de anjinhos vestidos de branco com asas patéticas, mas
esforço-me por acreditar, é que pior que isto que estou a viver te juro
que não lembra a nenhum dos terríveis vermelhos que usam aquela seta no
fim da cauda. É fazeres-me desistir de te acompanhar à Dr.ª Paula por
insistires que ‘o meu marido é que está muito mal’, ou fazeres da
pobre nutricionista – que sorte havia de lhe sair na vida – a psicóloga
do Jorginho.
‘Se
ainda me queres vender’ – nunca pensei que os mundos do Palma
existissem tão realmente ,mas claro que tu mais a tua superioridade e
naturalidade toda, me disseste que sim, num ‘porque não? se já não és
nada para mim, ao menos ainda podes ser util aos outros, além disso já não
tenho dinheiro para tratar do Jorginho’. Tratar do Jorginho...vai-te mas
é matar para uma esquina, que é talvez o único lugar de que ainda és
digna habitar!
Está
a tocar a campainha...e já estou a ficar nervoso porque são duas da manhã
e ninguém cá vem a estas horas, a não ser quem eu esteja a pensar que
seja...e pronto! vejo-te de tabuleiro em riste com quatro whiskys, com
aquele sorriso que às vezes acho tão ridículo...
Esqueço-me
só por esta noite e te juro que amanhã falo com o meu advogado,
Esmeralda, e ponho um ponto final neste casamen......
...Neiiida!?
............Neida!...
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